FOLHA DE SÃO PAULO
MARIANA BARBOSA
DA REPORTAGEM LOCAL
O Brasil é a grande estrela da atual safra de balanços das
multinacionais - referente ao ano de 2009. Com a estagnação ou a
retração das economias da Europa e dos Estados Unidos, a força do
mercado interno brasileiro, sobretudo a partir do segundo semestre,
contribuiu para melhorar o desempenho das companhias nos mais diversos
setores.
Com vendas de R$ 11,5 bilhões no ano passado, a Unilever Brasil subiu
no ranking da multinacional e alcançou a segunda posição, atrás apenas
dos Estados Unidos. Em 2004, o Brasil era a sétima subsidiária em
faturamento.
De acordo com o vice-presidente corporativo, Luiz Carlos Dutra, o
desempenho é resultado da decisão da companhia de manter os
investimentos, apesar da crise global. "Fizemos mais de 60 inovações,
investimos na expansão da fábrica de sabão em pó no Nordeste e
ampliamos a presença na mídia", diz Dutra.
Manter o ritmo de investimentos e ganhar mercado em ano de crise também
foi a estratégia da Nestlé Brasil, que em 2009 se transformou no
segundo principal mercado para a multinacional suíça, com vendas de R$
15,5 bilhões. O país galgou duas posições no ranking de faturamento,
superando Alemanha e França e ficando atrás apenas dos EUA.
Enquanto as vendas da Nestlé na Europa cresceram apenas 1,2%, nas
Américas a alta foi de 4,8% -sendo que no Brasil, isoladamente, o
crescimento foi de 10%. "O Brasil é uma prioridade para a Nestlé",
afirmou o presidente da Nestlé Brasil, Ivan Zurita, durante inauguração
de uma nova fábrica em Carazinho (RS).
Apesar de a Nestlé ter registrado uma queda de 42% no lucro líquido, o
resultado, turbinado pela performance nas Américas e na Ásia, ficou
acima das expectativas dos analistas.
Na AB Inbev, maior cervejaria do mundo, a contribuição do Brasil foi
ainda mais crucial. Enquanto no mundo todo as vendas de cerveja caíram
0,8% no ano passado, no Brasil a empresa vendeu 9,9% mais.
A Ambev, que é controlada pela AB Inbev e produz as marcas Brahma e
Skol, respondeu por 30,8% do Ebitda [lucro antes de juros, impostos,
depreciação e amortização] do grupo, que foi de US$ 13 bilhões em 2009.
O estímulo às vendas de carros com a redução do IPI (Imposto sobre
Produtos Industrializados) fez do Brasil um dos únicos países a
registrar crescimento nesse setor no mundo: 11,4%. E, pela primeira vez
na história, as vendas da Fiat no Brasil superaram a da matriz. Foram
737 mil unidades, contra 722 mil na Itália. Há dez anos, o mercado
brasileiro era metade do italiano.
"A contribuição do Brasil foi bastante expressiva e em 2010 deverá ser
ainda maior, considerando que este será um ano ainda muito difícil na
Europa", disse, na semana passada, o presidente mundial do grupo Fiat,
Sergio Marchionne, que veio ao Brasil para inaugurar uma fábrica de
máquinas agrícolas em Sorocaba.
Para a Portugal Telecom, o Brasil também já superou a matriz. No ano
passado, 51,1% do resultado da companhia teve origem no Brasil. A PT é
dona de 50% da Vivo. No último trimestre de 2009, as vendas da PT
cresceram 18% no Brasil, para 905,3 milhões, enquanto em Portugal elas
caíram 3,4%, para 846,7 milhões.
Na rede varejista francesa Casino, controladora do Grupo Pão de Açúcar,
enquanto na matriz as vendas recuaram 3,8%, na América do Sul cresceram
5,7%. O desempenho nas vendas foi puxado por "uma excelente
performance" no Brasil. O crescimento sobre mesmas lojas no Grupo Pão
de Açúcar foi de 12,7%.
Remessas
Apesar de o Brasil contribuir para salvar os balanços de
multinacionais, as empresas estrangeiras remeteram 30% menos lucros e
dividendos às matrizes em 2009, na comparação com 2008. Dados do Banco
Central mostram que essas empresas enviaram US$ 17,7 bilhões no ano
passado. Em 2008, foram US$ 25,3 bilhões.
"Houve um recuo por conta do baixo crescimento em 2009, mas a
expectativa para 2010, com a economia crescendo mais de 5%, é de
retomar o patamar de 2008 e até superá-lo", afirma Luís Afonso Lima,
presidente da Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas
Transnacionais). Para este ano, o BC estima remessas de US$ 30,2
bilhões.
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