Valor Econômico
Luiz Sérgio Guimarães, de São Paulo
Já não se fazem mais apertos monetários como antigamente. Às vésperas
do início de mais um ciclo de alta do juro básico pelo Comitê de
Política Monetária (Copom) do Banco Central - o quarto do governo Lula
-, a taxa real projetada para 12 meses está em 6%.
Mesmo antes da elevação da Selic, congelada em 8,75% desde julho do ano
passado, já é o maior juro real do mundo. De acordo com ranking da
consultoria UP Trend, está à frente dos pagos pela Indonésia, de 3,6%,
e pela China, de 3,3%.
Mesmo assim, de acordo com estudos de bancos e consultorias, ainda é
insuficiente para debelar as pressões inflacionárias. Para estas
instituições, o juro real de equilíbrio (o que consegue emparelhar a
velocidade de crescimento da economia com o seu potencial não
-inflacionário de expansão) deve ser de 7% a 8%. Não chegará lá.
As indicações são de que o BC pode elevar gradualmente a Selic dos
atuais 8,75% para 11,25% até o fim do ano. Comparativamente à meta de
inflação de 4,5%, isso dá um juro real de 6,46%. Trata-se de taxa que
faz ter saudade do recorde de baixa do juro real, os 4,62% do dia 17 de
julho de 2009. Mas está bem distante das taxas "históricas". No
quadriênio de 95 a 98, a Selic real média foi de 22%. E entre 99 e
2007, de 10%.
O mercado não tem certeza se o início da série de altas da Selic
ocorrerá agora em março - o próximo Copom está marcado para o dia 17 -
ou só em abril. Mas este quarto e último aperto do governo Lula pode
até ser menor que os dois anteriores. O primeiro foi o menos intenso,
de apenas um ponto, com a Selic subindo de 25,5% para 26,5%. Foi
desfechado logo no começo da era Lula para sufocar resquício de
desconfiança externa.
O segundo, entre 2004 e 2005, já foi de 3,75 pontos, com a taxa
avançando de 16% para 19,75%. E o terceiro, em 2008, com a Selic
subindo de 11,25% para 13,75%, somou 2,5 pontos. Note-se que
nominalmente a Selic sempre está mais baixa no início de cada novo
ciclo de aperto. O de 2010 pode ser também de 2,5 pontos se a Selic
chegar a 11,25%. Há um consenso no mercado de que poderia ser bem
menos. Embora o Brasil exiba hoje notável capacidade de crescimento
autossustentável, ainda não conseguiu acabar com todas as heranças
inflacionárias.
Após a consolidação da estabilidade de preços e o abandono da âncora
cambial, esperava-se que a Selic pudesse ser reduzida de forma a
aproximar-se das taxas praticadas no resto do mundo. "Isso não
aconteceu, a despeito da expressiva inflexão da política fiscal, com o
cumprimento de metas de superávit primário de cerca de 4% do PIB,
verificada a partir de 1999", diz o economista André Modenesi,
pesquisador do IPEA. No seu entender, a política monetária brasileira
ainda constitui uma "anormalidade".
Apesar de o país praticar uma taxa de juros superior àquelas empregadas
por seus pares latino-americanos, a inflação no Brasil tem permanecido
em patamares relativamente elevados.
O debate sobre as causas da manutenção dos juros em patamares elevados
é inesgotável. E irreconciliável, dependendo da corrente de pensamento
que discuta o tema. Modenesi, economista da ala desenvolvimentista,
levanta cinco explicações para a ocorrência desse fenômeno: 1) a
reduzida eficácia da política monetária (há graves problemas no
mecanismo de transmissão da política monetária); 2) a convenção a favor
do conservadorismo na política monetária; 3) a chamada hipótese
Bresser-Nakano; 4) a fragilidade das contas públicas inibe o pagamento
de juros baixos pois os títulos federais não teriam demanda; e 5) a
incerteza jurisdicional decorrente da existência de um viés anticredor.
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